sexta-feira, 11 de maio de 2018

Relato do encontro NAMI: Afetos e Representações poéticas sobre a morte.

No dia 07 de maio, foi realizado o segundo encontro do Grupo de Pesquisa em Narrativas Midiáticas (NAMI/Uniso/CNPq) em 2018, que contou com a fala da professora doutora Míriam Cristina Carlos Silva, do PPGCC da Uniso, sobre as ligações entre os afetos – tema principal do NAMI neste ano – e seu projeto de pesquisa atual: Representações Poéticas da Morte nas Narrativas Midiáticas (Uniso/Fapesp).

O texto “Suíte Acadêmica: apontamentos poéticos para elaboração de projetos de pesquisa em Comunicação”, escrito por João Anzanello Carrascoza, foi utilizado como norte da apresentação, na qual a pesquisadora relatou o caminho percorrido até chegar à escolha do seu objeto de estudo: a morte, tema que a inquietou ainda menina, com os versos de Carlos Drummond de Andrade:

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido ao sentido de viver, amar, morrer?

Míriam explicou que amamos para nos vincular e nos vinculamos para nos comunicar, de modo que comunicação e o vínculo estão completamente relacionados.

Foi com base no poema de Drummond que surgiu a inquietação para a pesquisa. Alguns de seus questionamentos foram: Como se constituem as representações que buscam comunicar a morte, nas narrativas? Quando materializadas em representações poéticas, podem caracterizar uma comunicação poética? Em que a comunicação poética difere de outras formas comunicacionais? Como rompimento com o cotidiano, a morte é a suspensão da própria narrativa. Uma comunicação poética seria uma forma de religação?

A partir da imagem do conto “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luís Borges, a pesquisadora apresentou o conceito de semiosfera, como base para esclarecer seus alicerces teóricos na pesquisa. Compreendida como uma espécie de cosmos sígnico, a semiosfera abarca ideias que são atualizadas e transformadas constantemente: através do atrito entre conjuntos de signos, textos e códigos, novas redes vão se construindo.


A biblioteca de Babel: semiosfera em imagem

Começando por seu esposo, Werinton Kermes, que foi o responsável por incentivá-la a ingressar no mundo acadêmico, Míriam citou algumas de suas referências, como Philadelpho Menezes, Fernando Segolin e Décio Pignatari, para a compreensão sobre o poético; Norval Baitello Júnior, com os conceitos de comunicação e vínculo; e Amálio Pinheiro, que a apresentou a autores como Iuri Lotman, com o conceito de semiosfera, e Oswald de Andrade, com o conceito de antropofagia, central para Míriam por elucidar – através da noção de valores que são ingeridos, digeridos e transformados – como se dão os processos comunicacionais e culturais.

Deste ponto de partida, a pesquisadora apontou outros autores importantes em sua pesquisa, como expansões de seu alicerce teórico. Principalmente em seu projeto atual, alguns deles são: Vilém Flusser e Ciro Marcondes Filho, para pensar a comunicação, entendida como algo raro, dificílimo e transformador; Edgar Morin, para pensar sobre a morte, concebida como fundamento da cultura; Walter Benjamim, para pensar as narrativas como mediadoras da experiência humana; e Gustavo Castro e Florence Dravet, que trabalham a comunicação associada à poesia, na defesa do pensamento poético como o pensamento do aberto, da conexão, que reconecta o homem aos outros homens, ao universo e às coisas que o cercam.

Para explicar o corpus da sua pesquisa, Míriam falou primeiro sobre os corpos na pesquisa. Através de um mosaico, formado por amigos, companheiros de pesquisa, alunos e orientandos de todas as épocas, a professora contou de que maneira chegou, por meio de suas relações, conversas e trocas com essas pessoas, ao objetivo de avaliar narrativas cinematográficas ibero-americanas.


Os corpos no corpus da pesquisa

A pesquisadora relatou, então, as principais observações às quais chegou por meio das análises realizadas até o momento, a partir do filme argentino Um conto chinês (2011, direção de Sebastián Borensztein) e da produção brasileira A festa da menina morta (2009, dirigido por Matheus Nachtergaele). A telenovela global Velho Chico (2016, dirigida por Luiz Fernando Carvalho) também foi analisada, uma vez que é o objeto de estudo da pesquisa de Iniciação Científica desenvolvida por Bruna Emy Camargo, integrante do NAMI, sob orientação de Míriam. Outro contato com representações poéticas sobre a morte ocorreu através do professor Paulo Celso da Silva, do PPGCC da Uniso, que propôs a análise em conjunto dos livros em HQ El arte de volar e El ala rota, escritos por Antonio Altarriba e povoados por imagens da morte.

Destacando a força simbólica da morte, uma metáfora, inclusive, para a vida, Míriam encerrou sua apresentação com trechos de Neruda, extraídos do Livro das Perguntas:

Não será a morte afinal 
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desmembrados, 
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá a tua destruição 
em outra forma e em outra luz?

Teus vermes irão fazer parte 
de cachorros ou de mariposas?

De tuas cinzas nascerão 
tchecoslovacos ou tartarugas?

Não vês que a macieira floresce 
para morrer na maçã?

Ainda durante o encontro foi lançado o livro O Verso da Máscara: processos comunicacionais nos larps e RPGs de mesa, resultado da dissertação de mestrado de Tadeu Rodrigues Iuama, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (Uniso), pesquisador do NAMI e, atualmente, doutorando em Comunicação pela Universidade Paulista (Unip).


Na apresentação de seu livro, Tadeu Rodrigues falou sobre a importância do NAMI para o rumo de suas pesquisas


Tadeu Rodrigues: Da dedicação à dedicatória

Após o debate, permeado pela imagem de Abaporu, obra de Tarsila do Amaral e ícone da antropofagia (exposta por Míriam no slide final de sua apresentação).


Míriam, sob o sol de Abaporu

O encontro foi encerrado com os saborosos comes e bebes, além da tradicional foto final.


Os presentes 

O próximo encontro do NAMI será no dia 24 de setembro, durante o XII Encontro de Pesquisadores em Comunicação e Cultura da Uniso – Epecom.

Aos que se interessarem, dois artigos citados ao longo deste relato podem ser acessados através dos seguintes links:

Representações Poéticas da Morte nas Narrativas Midiáticas: Um Conto Chinês: http://revistaseletronicas.pucrs.br/…/re…/article/view/27475

Quadrinhos como mídia: A narrativa histórica e poética de El Arte de Volar e El Ala Rota: https://portalrevistas.ucb.br/index.p…/esf/article/view/7991


por Gisele Gabriel, com colaboração de Isabella Pichiguelli.

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