segunda-feira, 5 de março de 2018

28/2/2018 - Relato da palestra de Malena Contrera sobre "A Comunicação e os afetos"




No dia 28 de fevereiro, foi realizado o primeiro encontro do Grupo de Pesquisa em Narrativas Midiáticas (NAMI/Uniso/CNPq) de 2018. Dando continuidade ao tema trabalhado no ano anterior, Comunicação e Afetos, recebemos como convidada a Profa. Dra. Malena Segura Contrera, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista (Unip).
A professora Malena fez um panorama sobre um campo de estudos na área da Comunicação que lhe é muito caro: o dos afetos. Segundo ela, os estudos desenvolvidos no Brasil, principalmente a partir da década de 1990, provêm da interface com duas outras áreas. A primeira é a filosofia, em particular pela influência do pensador francês Michel Maffesoli, por meio do qual os estudos no país começaram gradualmente a migrar do aspecto político para o dos afetos propriamente ditos. Para a pensadora, é importante notar que Maffesoli, em contraposição à noção weberiana de desencantamento de mundo, propõe um “reencantamento” na contemporaneidade, com o qual, aliás, ela discorda. Desta vertente, a filosófica, teriam bebido importantes teóricos brasileiros, tais como Muniz Sodré, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob supervisão do qual a professora conduziu seu pós-doutorado, e o professor Ciro Marcondes Filho, da Universidade de São Paulo. A segunda interface, segundo ela mais fértil, é a com a antropologia. Ainda nos anos 1990, outro pesquisador, o brasileiro Norval Baitello Junior, propôs um olhar acerca dos afetos – que ele chama de vínculos -- em sua obra O animal que parou os relógios (Annablume, 1999).
Ainda hoje, ela diz que, apesar de existir uma maior abertura para os estudos acerca do afeto, haveria dificuldades de se conseguir verbas para o desenvolvimento de estudos sobre o afeto em Comunicação, uma vez que os mesmos não gerariam grandes patentes ou royalties, não sendo valorizados do ponto de vista mercadológico. Ainda assim, ela lembra que os pesquisadores europeus, no século XXI, compreenderam a importância de avançar os estudos sobre afeto. E que apesar de não ser um tema que “dê ibope”, ele gera um grande impacto na vida das pessoas que entram em contato com o assunto.
Para avançar nos estudos, ela esclarece a importância em se distinguir os conceitos de afeto, emoção e sentimento. De acordo com ela, os pensadores da área que seguem a linha de Maffesoli, por exemplo, não costumam diferir os conceitos entre si.  Já os estudiosos ligados à linha antropológica, como Baitello Júnior, o francês Edgar Morin e os alemães Christoph Wulf e Dietmar Kamper (1936-2001), entendem que o corpo não está separado da alma como defendido no contexto do método filosófico cartesiano.
Lembrando a complexidade hologramática proposta por Morin, Contrera afirma que dentro desta perspectiva: “Em toda a parte está o todo”. Citando o pensador, diz: “Toda Ciência vem com a consciência de que o sujeito está no objeto”. O olhar antropológico, empírico, envolve o sujeito que precisa averiguar o fenômeno pessoalmente, ou seja, de corpo e alma.
Para a pesquisadora brasileira, a grande questão do afeto está diretamente ligada ao corpo. Assim, compreender o afeto seria compreender de que forma o corpo o recebe. Etólogos, como o neerlandês Frans de Waal, por meio de obras como A Era da Empatia (Cia das Letras, 2010), já teriam apontado para o crescente abandono e consequências deste na história do corpo.
Este abandono implicaria em um menor protagonismo do corpo, o que geraria usuários apáticos, demasiadamente prontos e aptos para o consumo sem uma visão crítica necessária ao seu exercício. Este fenômeno é facilmente observado, segundo a pesquisadora, por meio do grande desenvolvimento dos ambientes virtuais. A professora indica o filme Denise está chamando (Denise Calls Up), dirigido por Hal Salveen, de 1995, para uma melhor compreensão de como a ausência do corpo afeta as relações.
Pouco antes do término de sua fala, como uma cereja de um bolo já saboroso, Malena define o que é afeto por meio de uma vertente ligada à psicologia: “Afeto é aquilo que me afeta”, lembrando que há de se questionar por que certas coisas nos afetam e outras não.
Após um afetuoso debate final entre os presentes, o primeiro encontro do Grupo de Pesquisa em Narrativas Midiáticas foi encerrado com o tradicional momento dos comes e bebes.
O segundo encontro será no dia 7 de maio (segunda, das 14h às 16h) e contará com o relato de pesquisa atual da Profa. Dra. Míriam Cristina Carlos Silva (Uniso), que também envolve o tema. Anote na agenda!
Vanessa Heidemann

Trailer do filme Denise está chamando: https://www.youtube.com/watch?v=nMsQ2jWom_M

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